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Tuesday, May 03, 2005
Ano Novo.

Primeiro de Maio: Ano Novo Pagão.
Parabéns a todos!
Que este novo ciclo traga novas e benéficas energias.
Que tudo que for ruim, velho e sem uso possa ser descartado, abrindo espaço para o que é novo, belo e útil.

Beijos de luz.
Cátris

Posted at 5/3/2005 6:48:51 pm by Cátris
8 Mensagens na água...  

Thursday, April 28, 2005
Encontros no trensurb

Encontrei o Anjo da Morte, um dia desses, no trem.
Sentou do meu lado e disse que estava cansado, muito cansado.
- Nunca trabalhei tanto como agora, estou estressado. Isso que só cuido dos seres humanos. O resto é de outro departamento.
- Imagino - falei - com seis bilhões de habitantes no mundo! Quanto mais gente nasce, mais gente morre.
- Pois é... e na verdade, nasce muito mais do que morre, por isso o mundo está cada vez mais cheio...
- E como é que você, sendo cego, não confunde as pessoas?
- Impossível! Vocês são inconfundíveis.
E continuamos a conversar. Falamos de Malthus e a teoria das populações, Darwin, evolução, nazismo, eugenia...
- A medicina tem me prestado um grande favor. Muita gente não morre por que os médicos conseguem segurar. Prá mim, ótimo, sobra uns minutos de folga. Prá vocês é péssimo. Cada vez mais gente comendo sem produzir, cada vez mais gente produzindo sem comer... Acredite, vocês humanos estão no topo da parábola, agora a tendência é só despencar.
Chegamos na sua estação. Levantou, se despediu e saiu.
- Tchau! A gente se vê qualquer dia.
Fiquei pensando no que ele disse...
Uma pena ter ido embora. Estava com pressa, à trabalho como eu.
Mas valeu o papo. Não é todo dia que se encontra um anjo com quem se possa conversar.
Principalmente no trensurb.

Cátris
Outono de 2005.

Posted at 4/28/2005 9:20:02 pm by Cátris
3 Mensagens na água...  

Tuesday, April 19, 2005
Ausência...

Hum... muito tempo sem escrever... Só me dei conta hoje que já faz 20 dias que não atualizo o blog.
Mas não fiquem tristes meus amigos, não esqueci de vocês...
É apenas mais um daqueles lapsos de inspiração, qualquer hora surge uma boa idéia e eu volto a escrever.
Se alguém tiver alguma sugestão, será sempre bem-vinda.

Beijos de luz.
Cátris

Posted at 4/19/2005 3:42:13 pm by Cátris
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Thursday, March 31, 2005
Tardes de chuva.

Tardes de chuva me deixam assim...
Me fazem sentir triste, saudosa...
Uma melancolia boa,
Uma saudade não sei do quê,
Vontade de chorar sem saber por quê.

De encostar o rosto na janela,
Sentir o calor da pele se perdendo no vidro frio...
Deixar as lágrimas escorrerem com a chuva,
Lavando a alma das dores incompreendidas,
Das saudades tão doídas,
Dos recentimentos, dos anseios,
Dos desejos escondidos,
Nunca revelados,
Nunca realizados...

Tardes de chuva são assim...
Uma tristeza com gosto de infãncia.
De um sofá quente, um "nescau" e uma tv.
Uma bacia de pipocas, um prato de bolinhos.
O colo da mãe.
Um desenho animado, um filme na sessão da tarde.
A aula gazeada, pra ficar em casa.

Tardes de chuva são sempre assim...
Me trazem lembranças doces.
Pequenas alegrias de criança.
Ouvir o barulhinho da chuva no telhado da casa,
Imaginar o mundo lá fora,
Gelado, encharcadinho...
E eu ali, no quentinho...
Tão bom...

Vontade de sair correndo,
Fugir do ônibus,
Fugir do emprego!
Largar tudo e sair gritando:
Mãe, mãe, tô com medo!
Me leva pra casa, me pega no colo!
Me tira daqui, desse mundo horroroso!
Aqui ninguém mais ri, mãe,
Ninguém mais brinca.
Todo mundo só pensa em trabalho, em dinheiro...
Quero teu colo, mãe, teu aconchego...
Quero ser criança de novo, só um pouquinho...

Tardes de chuva são mesmo assim...
Me fazem tão triste...
Mas é tão bom...
Fecho os olhos e as lembranças vem,
Devagarinho...
E por um instante sou criança de novo,
Lá na sala da antiga casa,
Tomando um "nescau" quentinho,
Assistindo Tom&Jerry,
Dando risada, brincando...
E o mundo por instante fica melhor,
Mais bonito...
E eu guardo essa lembrança,
Bem guardadinha.
Pra usar de remédio até a próxima tarde de chuva.



Cátris
Outono de 2005.

Posted at 3/31/2005 5:42:28 pm by Cátris
2 Mensagens na água...  

Tuesday, March 22, 2005
Mundo giratório.

O mundo gira...
E gira, e gira, e gira, e gira, e gira...

E você vai ficando tonto...
Tonto, tonto, tonto, tonto, tonto...

Cada volta uma novidade, cada volta, um encontro.
E eu?
Em que volta eu me encontro?
Em que volta eu te encontro?

Nos encontramos dando voltas, dando meia-volta, andando de volta.
De volta pra onde?
De volta de onde?

Onde estou?
Pra onde eu vou?

E você, como vai?
E você, pra onde vai?

Eu vou bem.
Vou de bem.
Vou pro bem.

E você?
Não vem?

Eu vou. Você vai. Vamos todos.
Vamos girar, pra onde a vida nos levar.

E ela vai levando, levando, levando, levando...
E vamos girando, girando, girando, girando...

Ficando mais tonto a cada volta.
Tanta volta que o mundo já deu...
E no meio desse monte de voltas...
Olho em volta...
Cadê eu???

Cátris
Outono de 2005



Valeu Xiru, teus textos me inspiram...

Posted at 3/22/2005 7:03:31 pm by Cátris
4 Mensagens na água...  

Inspiração...


Huummm...
Sérios problemas de inspiração...
Faltam idéias... Não sei sobre o que escrever...
Idéias? Sugestões?
Estou atendendo a pedidos!

Beijos iluminados...

Posted at 3/22/2005 2:35:50 pm by Cátris
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Tuesday, March 08, 2005
Para Inarinha, minha amiguinha...

Saudações, amigos. Os textos que seguem são em resposta ao pedido de ajuda de uma amiga, e foram extraídos, respectivamente, de Misterios Antigos e Panteão Celta. Existem também muitos outros sites onde se pode obter mais informações sobre bruxaria e mitologia Celta.

***

Beltane – A Fogueira de Belenos – Casamento do Deus e da Deusa
(01 de Maio - Hemisfério Norte) e (31 de Outubro ou 01 de Novembro - Hemisfério Sul)


Pronuncia-se Bioltuin (Be-All-Twin) É o festival do casamento entre o Deus e a Deusa, a Rainha de Maio, a Virgem.

Por ser uma data de cunho profundamente sensual, foi talvez uma das mais sincretizadas pela cristandade. Assim, as fogueiras de Beltane e o Maypole (mastro adornado com as fitas coloridas trançadas) tornaram-se as fogueiras e mastros das festas dos santos "casamenteiros" cristãos, bem como o mês de Maio foi consagrado à Virgem Maria e tido como benévolo aos casamentos. Na tradição antiga as pessoas não se casavam durante o Beltane, pois esse mês é dedicado ao casamento do Deus e da Deusa.

BELTANE, em 01 de Novembro aqui no hemisfério sul, mas em 1o. de Maio nos países nórdicos berços do culto, representa a entrada do jovem Deus para a idade adulta. Incitados pelas energias da Natureza, pela força das sementes e flores que desabrocham, a Deusa e o Deus apaixonam-se. Nesta data são celebrados rituais de fertilidade e imensas fogueiras são acesas. As fogueiras de Beltane simbolizam o calor da paixão e a intensidade da interação entre a Deusa e o Deus, e a crescente fecundidade da Terra.

Belenos é a face radiante do Sol, que voltou ao mundo na Primavera. Em Beltane se acendem duas fogueiras, pois é costume passar entre elas para se livrar de todas as doenças e energias negativas. Nos tempos antigos, costumava-se passar o gado e os animais domésticos entre as fogueiras com a mesma finalidade. Daí veio o costume de "pular a fogueira" nas festas juninas. Se não houver espaço, duas tochas ou mesmo duas velas podem ter a mesma função.

Uma das mais belas tradições de Beltane é o MAYPOLE, ou MASTRO DE FITAS. Trata-se de um mastro enfeitado com fitas coloridas. Durante um ritual, cada membro escolhe uma fita de sua cor preferida ou ligada a um desejo. Todos devem girar trançando as fitas, como se estivessem tecendo seu próprio destino, colocando-nos sob a proteção dos Deuses.

 As Fogueiras de Beltane


Na antiga religião, antes da Igreja destruir este culto e transformá-lo no que se conhece como "bruxaria", os camponeses iam para os bosques de carvalhos à noite e acendiam enormes fogueiras para a Deusa o que tornou esta festividade conhecida como As Fogueiras de Beltane.

Nesta época, os princípios morais vigentes eram outros, a mulher era um ser livre e não havia o machismo como hoje se conhece. As sociedades eram matriarcais. Sendo assim, nesta noite de Beltane, as moças virgens e mesmo as casadas, iam para os bosques na celebração do que se chamava "O Gamo Rei" onde os rapazes copulavam com as moças sob a lua cheia guiados pelo instinto num ritual de fecundidade e vida.

As crianças que por ventura fossem geradas nesta noite eram consideradas especiais e normalmente as meninas viravam sacerdotisas e os meninos magos. O ritual era consagrado à Deusa para que esta trouxesse sempre boas colheitas através da fertilidade da terra. Embora o culto fosse predominantemente feminino, não se excluía, de forma alguma, o papel do Deus, pois, a essência de Beltane, sendo a fecundação, impunha sempre, a presença do feminino e masculino.

Sendo assim, no Beltane, os meninos tinham a sua cerimônia de passagem da adolescência para a maturidade. O rapaz personifica o Deus e a virgem, a Deusa. Na escolha de um rei, o rapaz veste a pele de um Gamo (um veado real) e desafia um gamo de verdade, o líder da manada, e luta com ele até a morte de um deles.

Se o rapaz for o vencedor, terá sido escolhido Rei representando o Deus, o Gamo Rei e terá uma noite com a Virgem que representa a Deusa onde um herdeiro será concebido. O novo herdeiro, um dia deverá disputar com o pai pelo trono. O Gamo Novo e o Gamo Velho...

O Rei Arthur passou por esta prova numa noite nas fogueiras de Beltane conforme o romance Brumas de Avalon.

Quando não era preciso escolher-se um rei, a luta com o gamo não era necessária e a tradição seguia apenas como uma representação ritual.

A tradição do Gamo Rei foi transformada, através dos tempos, e a imagem do gamo, em alguns cultos, substituída pela de qualquer animal que tivesse galhos ou chifres, sempre representando a divindade masculina do Deus que recebe os nomes de Galhudo, Cornélio, Cornudo e até mesmo Chifrudo sem ter qualquer conotação com o que a Igreja estabeleceu como "demônio do mal". Os galhos na antiguidade eram sinônimo de força e honra e não o que hoje significam.

Então, no 31 de outubro ou 01 de novembro, estaremos na Lua cheia, ao ar livre, recebendo o luar e longe de qualquer coisa feita pela mão do homem. Deveríamos fazer um círculo com pedras, ficar dentro dele e acender uma pequena fogueira. Este ritual de fertilidade vai promover mudanças na vida de todo aquele que entender o significado do Beltane. Na verdade é um louvor a Terra, à Natureza e à Mãe de todas as coisas. É uma data muito bonita e de grande significado.

Em Beltane nós nos abrimos para o Deus e a Deusa da Juventude. Não importa quanto velhos sejamos, em Beltane, sentimo-nos jovens novamente e nos unimos ao fogo da vitalidade e juventude e permitimos que esta vitalidade nos vivifique e cure.

Quando jovens talvez usássemos este tempo como uma oportunidade para conectar nossa sensualidade de um modo criativo e quando mais velhos esta conexão será obtida através da união dentro de nós mesmos, das nossas naturezas feminina e masculina. A integração entre nossos dois aspectos interiores, feminino e masculino, é o caminho da espiritualidade e Beltane representa o tempo onde podemos nos abrir amplamente para este trabalho permitindo que a natural união das polaridades ocorra naturalmente. Este é um trabalho essencialmente alquímico.

***

Brigit (exaltada) irlandesa e britânica. Trindade de deusas associada ao Fogo e ao trabalho com metais, à poesia e com a  maternidade e ao nascimento. Como indivíduo, é filha de Daghda. Na Bretanha pré-romana, era a Deus protetora da tribo Brigantes, e como tantas deusas celtas, tem associações com rios. Era confundida na mitologia cristã com Bridget.

***


Posted at 3/8/2005 6:22:41 pm by Cátris
4 Mensagens na água...  

Thursday, February 24, 2005
O tão esperado retorno!!!

    Saudações amigos! Enfim estou de volta!

    Peço mil perdões pela demora, mas, como sabem, estava sem acesso à internet. Mas agora estou novamente conectada e prometo manter este lugar sempre em ordem, como meus ilustres visitantes merecem.
    Não estranhem, porém, o estilo de meus textos. Atualmente estou passando por um momento muito bom de minha vida, e com certeza isso se refletirá aqui, onde as mensagens se refletem na água cristalina da minha bacia de prata e todos os que olham dentro dela podem ver meus mais secretos sentimentos.
    Se não lhes agradar o estilo, por favor critiquem, sejam sinceros. Tenho estado muito feliz ultimamente e admito que este não é o melhor estado de espírito para escrever. Meus textos preferidos foram escritos em tempos de extrema angústia e aflição. Mas acho que aqui todos nós temos a mente aberta, e estamos prontos a aceitar novas idéias e formas de expressão.

    Sejam bem-vindos, amigos! Visitem-me! Leiam! E é claro, comentem! Só escrevo para vocês, e me alimento das suas opiniões!

    Beijos iluminados a todos!
    Cátris

Posted at 2/24/2005 6:22:36 pm by Cátris
6 Mensagens na água...  

Tuesday, December 14, 2004
Fim de ano...

    Saudações amigos. É com muito pesar que venho anunciar que, por motivos de "inacessibilidade internética", estarei temporariamente afastada de vocês. Prometo contudo voltar a postar logo após a virada do ano, e tentarei, durante o período de férias escolares, manter contato ao menos uma vez a cada quinze dias.
    Como despedida, deixo-lhes meus desejos de um Novo Ano tão bom ou melhor que este que passou, com muitos sucessos e realizações. Deixo também um de meus contos favoritos, para que possam apreciar (e comentar) durante minha ausência. Espero que gostem. Até.
   
    Muita luz
    Cátris

À fria neblina da manhã.

 

###

 

A jovem baixa, de cabelos louros, curtos e desalinhados, vestindo um jeans muito gasto e uma simples blusa azul claro, atravessa a passos lentos e descompromissados o grande e suntuoso portão. À sua direita, um velho senhor de cabelos brancos finos e ralos, está sentado ao lado de uma grande quantidade de vasos, com os mais variados tipos de flores. Aproxima-se dele com um leve sorriso nos lábios, dirige-lhe algumas palavras e sai, levando consigo um pequeno botão de rosa vermelha.

Continua seu caminho através das alamedas observando desatenta as pessoas ao seu redor. A grande maioria são velhos, mas também percebe alguns jovens e até mesmo crianças. Felizmente não encontra nenhum rosto conhecido além daquele que veio visitar. Alguns metros à frente ela muda de caminho, passando a andar entre as construções até chegar àquela que procurava. Num recanto, próximo a um banco de pedras e a um pequeno cipreste, ela se ajoelha e deposita a flor sobre a lápide simples, contendo apenas uma inscrição curta e a fotografia em preto e branco de uma mulher de meia-idade num sorriso contido e quase triste.

- Oi, mãe, como vai? Já faz algum tempo, não é mesmo? Cinco meses? Ou seis? Não sei, não tenho certeza, mas acho que só estive aqui no seu enterro... Me perdoe, mas estava sofrendo demais... E passei algum tempo fora, viajando. Acabei de chegar. Queria ter ido embora, para sempre, mas não consegui, senti muito a falta dele, demais mesmo. No começo achei que não ia ser assim, afinal de contas ele nem percebia mais que eu estava ali, nem ao menos me notava. Só tinha olhos para aqueles livros. Tudo o que fazia era ler e escrever, ler e escrever, o tempo todo! Eu estava cansada, carente, triste demais com a sua morte, mãe, precisando de apoio, e ele nem sequer percebia. O que eu devia fazer? Me esconder em algum lugar e chorar? Sofrer calada? Por quê? Era melhor então ficar sozinha pra sempre...

Interrompe o monólogo por alguns instantes para secar as lágrimas que começam a lhe escorrer pelo rosto. Respira fundo e olha a paisagem à sua volta. Tudo calmo. Um vento morno sopra de leve contra as poucas árvores, enquanto do horizonte surgem imensas nuvens negras, que vagarosamente começam a encobrir o céu cinzento e nebuloso, anunciando uma tempestade de verão.

- Perdoe-me, mãe, por vir aqui lhe incomodar com meus problemas, mas eu precisava falar essas coisas a alguém, e nesse caso você é a melhor ouvinte que eu poderia encontrar. Acho que se não falasse com alguém acabaria enlouquecendo, ou desenvolvendo um câncer – graceja, em meio às lágrimas – e eu não preciso de nenhum dos dois, não agora. Quando tomei aquela decisão achei que seria o melhor para nós dois. Ele poderia trabalhar o quanto quisesse e eu arranjaria um jeito de esquecer minha dor. Disse que passaria o fim-de-semana com uma amiga, para deixá-lo em paz com seus livros, e nunca mais voltei. Nem se deu conta de que a mala que eu estava levando era grande demais para dois dias. Antes de sair ainda lhe dei um beijo. Tenho certeza que naquele momento ele percebeu alguma coisa, pois me olhou nos olhos e disse que me amava. Por um momento pensei em ficar, em não fugir, em abraçá-lo, dizer que também o amava, que só precisava de um pouco mais de atenção... Mas ele logo voltou os olhos para o trabalho e eu saí, com a certeza de que não voltaria nunca mais. Foi doloroso fechar a porta e deixar para trás tantos sonhos, tantas lembranças, tudo o que construímos juntos... O que eu não sabia é que já estava levando sua semente viva dentro de mim! Estou grávida, mãe, de um filho dele, não é maravilhoso?

Uma rajada de vento mais forte balança seus cabelos. Ela olha para o céu, pálido céu de fim de tarde, e observa a longa linha vermelha do horizonte. “Vermelho como sangue.” pensa. Uma linha vermelha de sangue.

- Eu não sabia quando saí, só fui descobrir bem mais tarde. Já fazia algum tempo que ele trabalhava até muito tarde, contudo acordava sempre muito cedo. Quase não dormia. Estava sempre exausto. Raramente me procurava, e eu já não tinha mais ânimo para ser rejeitada. Depois de um tempo parei de tomar qualquer cuidado. Pensei que não corria nenhum risco, que não havia necessidade. No primeiro mês achei que fosse alarme falso, que era devido ao meu estado de espírito e a mudança de ares. Mas quando chegou o segundo mês e eu comecei a ter enjôos, passei a ter sérias suspeitas. Agora já tenho certeza absoluta. É por isso que vim até aqui antes de ir para casa, mãe. Para lhe mostrar seu neto.- sorri, acariciando o ventre.- Você ainda não pode vê-lo, é muito pequenino, mas está aqui. Eu sei, posso senti-lo. Ah, mãe, reze por mim. Reze para que ele me perdoe,que entenda que só fiz isso por ele, pelo nosso amor. Tenho certeza que ele sente a minha falta. Ele é bom, me ama e vai me receber de volta, tenho certeza. Ainda mais agora, com o bebê... É tão bom estar de volta, mãe! Mas agora eu preciso ir. Já é tarde e estou ansiosa, louca de saudade do meu amado. Eu volto para lhe contar como foi. Adeus, mãe, e obrigada por me ouvir.

A moça beija a ponta dos dedos e toca, de leve, o rosto no retrato. Levanta-se, bate a poeira das calças e começa a caminhar na direção do portão. Ao longe um cortejo fúnebre, lento e silencioso, acompanha mais um membro da cidade dos mortos até seu lugar de eterno repouso. Figuras negras, lúgubres, caminham abraçadas, aos pares, indiferentes à borrasca que se anuncia. Continua a andar sem dar muita atenção á cena, quando ouve uma voz atrás de si.

- Pobre covarde infeliz!

Olha para trás e percebe, surpresa, um homem parado de pé, com uma pá sobre o ombro, exatamente onde ela havia passado há alguns instantes.

- O que disse?

- O morto! Pobre covarde infeliz. Mais um suicida. Está cheio deles por aqui. Fracos, incapazes de suportar o próprio fardo. – responde o velho com as roupas sujas de terra e um chapéu de palha sobre o rosto.

- Como é que sabe disso? – pergunta a jovem, ainda confusa.

- Um coveiro sempre acaba ouvindo um murmúrio ou outro dos parentes durante o enterro. Daí é só juntar as peças e deduzir...

- Ah! Você é o coveiro, claro! Mas... como é que eu passei por aqui agora mesmo e não vi você?

- Hum, isso acontece. As pessoas quando andam pelo cemitério não costumam olhar muito pros lados, têm medo de ver seus próprios rostos em algum túmulo. E eu estou aqui há tanto tempo que já faço parte da vista...

- Tudo bem... Eu tenho que ir. Boa tarde.

- Boa tarde. Até!

“Figura estranha!” ela pensa, e continua seu caminho. Andando em meio aos túmulos, é inevitável lembrar da última vez em que estivera ali. A morte da mãe foi uma experiência traumática. Mesmo sabendo da sua doença, e que sua morte era iminente, não estava preparada. Ao caminhar pelas pequenas alamedas de pedra, começa a recordar... Os dias e noites de angústia. Tardes inteiras na sala de espera do hospital, ansiosa por alguma notícia. O desespero do pai. A dor dos irmãos. Manteve-se firme até o fim. No último momento, desistiu. Foi como se todo o universo desabasse sobre suas costas. Sentiu-se esmagada pela dor acumulada durante todo o período de espera. Chorou, gritou, desmaiou nos braços dos amigos. Depois, dias e dias de torpor. Não sentia nada. Nem tristeza, nem saudade, nem fome, nem frio, nada. Custou muito a se recuperar do choque, e quando pensa no assunto ainda sente vontade de chorar...

Olhando de relance para o cortejo percebe que foi interrompido e o caixão aberto, ao que parece, para uma última prece. Curiosamente algumas pessoas a observam e murmuram insistentemente entre si. Uma curiosidade mórbida lhe invade a mente. Sem pensar, se dirige até o local onde o cortejo espera. Ao longe, alguns trovões crepitam, anunciando o temporal e um leve chuvisco começa a cair, tornando a paisagem ainda mais escura e triste.

Ao se aproximar mais percebe diversos rostos familiares. Parentes e amigos de seu esposo e até alguns parentes seus. Um medo estranho começa a invadir-lhe a alma, um aperto no peito e a sensação de que algo terrível aconteceu na sua ausência. A chuva engrossa, o céu escurece antecipando o anoitecer, e os trovões se tornam ensurdecedores. As palavras do coveiro ribombam em sua memória, aumentando o terror. Algumas pessoas se afastam, abrindo passagem entre ela e o caixão. Sente o coração bater descompassado, cada vez mais rápido, doendo no peito. A chuva fria lhe encharca as roupas, os cabelos e lhe escorre pelo rosto. Aproxima-se do caixão hesitante, temerosa com o que está prestes a ver. Olha para dentro. Repousando, imóvel e sereno, um belo jovem, a pele morbidamente branca realçada pelos cabelos castanhos. Os longos cachos emoldurando a face lívida, artisticamente arranjados sobre os ombros e pescoço, na tentativa de esconder a horrenda cicatriz que corta de um lado ao outro sua garganta.

 

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A jovem dá um passo para trás, na ânsia de se equilibrar, sentindo o sangue fugir-lhe das faces e o mundo todo girar em torno de si. À sua volta, dezenas de rostos, alguns constrangidos, outros acusadores. A tempestade agora despenca com toda a fúria da natureza. A água gelada cai em grossos e pesados pingos que lhe ferem o rosto no impacto. Um círculo de figuras negras forma-se ao seu redor, acusando-a, condenando-a. Ao longe ela vislumbra a figura imóvel do velho coveiro, antes de perder totalmente a consciência.

 

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Lentamente ela desperta, percebendo logo que o marido já não se encontra ao seu lado na cama, ao que já se acostumou. Sem pressa se levanta e começa a arrumar a cama, enquanto tenta sem muita convicção lembrar-se do sonho que tivera. Algo lhe diz que é importante, mas não tem certeza. Lembra-se apenas de cenas soltas, desconexas. O túmulo de sua mãe. Um velho senhor. Um cortejo fúnebre à distância. Na certa sonhou com o enterro da mãe. A lembrança ainda é recente, afinal só se passaram três meses.

Com calma ela escolhe a roupa, se veste e observa o quarto, memorizando cada pequeno detalhe. Confere a mala e se prepara para sair. Disse ao marido que iria passar o fim-de-semana na casa de uma amiga, mas sua verdadeira intenção é fugir para algum lugar fora do estado, talvez até do país. Não agüenta mais essa situação, é preferível viver sozinha a ser rejeitada. Vai até a cozinha comer algo e se despedir, para sempre. Ao chegar à porta vê o homem que tanto amou e desejou sentado à mesa, de costas para ela, cercado por livros, papéis e anotações, como se mais nada no mundo existisse.

Observa entristecida a figura bela e compenetrada do amado. Os cabelos castanhos, longos e cacheados, penteados com esmero. As mãos ágeis e firmes, marcadas pelo hábito da escrita.O rosto sério, com a expressão dura e tensa de extrema concentração. Os olhos pequenos e escuros, fixos em algum ponto além da sua compreensão.

Num lapso a visão muda, como em um sonho ou alucinação. A mesa, os livros, os papéis, tudo coberto de sangue. O corpo inerte caído sobre a mesa. No chão, uma lâmina ensangüentada brilha, fria e imóvel, como um selo de prata no quadro grotesco. A cena muda de novo. Um caixão de madeira negra, forrado de rendas e seda branca. Dentro dele, lívido e estático, o corpo com uma grande cicatriz na garganta. “Uma linha vermelha de sangue.” Volta a vislumbrar a realidade onde se encontra e apóia-se no marco da porta, para que a vertigem não a derrube. Ele olha para trás, sobressaltado.

- Querida! O que houve? Você está branca feito cera! Está tudo bem?

- Está, tudo ótimo. Foi só uma tonturinha, acho que é fome. Bom dia, querido.

- Bom dia. Tem certeza que está bem? Você não pode sair doente...

- Não se preocupe, eu sei me cuidar. Mas... acho que não vou mais...

- Por quê? Estava tão animada. E eu tenho tanta coisa pra fazer...

Ela se aproxima e senta-se no colo do marido, beijando-lhe carinhosamente os lábios.

- Acho que você tem trabalhado demais. Devíamos tirar um tempo só para nós dois...

Beija-o novamente, dessa vez mais longa e avidamente, acariciando-lhe o rosto e os cabelos. Ele a abraça, retribuindo as carícias. Se afastam e ele a observa. Os olhos verdes brilham de excitação. Sorri.

- É minha amada. Acho que tem razão. Eu tenho mesmo trabalhado demais...

 

###

 

No cemitério, o velho coveiro senta-se cansado sobre o banco de pedras, gasto e cheio de limo. À sua frente, na pequena lápide, o rosto da mulher, no seu eterno sorriso medido e inexpressivo. Ajeita o chapéu sobre o rosto, num breve suspiro.

- É... Missão cumprida. Mais um que eu tirei da cova.

Levanta-se e sai caminhando a passos lentos em direção ao grande portão, para desaparecer em seguida, em meio à fria neblina da manhã, como se nunca tivesse existido...

 

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Outono de 2003.

Cátris


Posted at 12/14/2004 4:28:30 pm by Cátris
3 Mensagens na água...  

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